Curva ABC na moda: o que seus números não estão mostrando

Quando o giro desacelera, muitas marcas olham primeiro para o ranking de vendas, e não para a curva ABC na moda: o que vendeu mais, o que vendeu menos. A partir dele, decide-se o que repor e o que cortar.

O ranking de vendas é um bom ponto de partida, mas mostra só uma parte da história. O produto que mais vende pode estar deixando pouca margem. O estoque parado pode não estar sobrando, e sim no lugar errado. Este artigo mostra três leituras que, juntas, ajudam a tomar decisões de reposição mais seguras: a curva ABC, a relação entre giro e margem e o destino de cada estoque.

O que é a curva ABC na moda?

A curva ABC é uma forma de classificar os produtos de acordo com a participação de cada um no faturamento. Ela se baseia em um princípio conhecido: em quase todo negócio, poucos itens respondem pela maior parte do resultado.

Como referência geral, a classificação costuma ficar assim:

  • Curva A: cerca de 20% dos itens, que respondem por algo próximo de 80% do faturamento. São os produtos que sustentam a marca.
  • Curva B: os itens intermediários, que vendem bem, mas não sustentam a marca sozinhos.
  • Curva C: a maior parte dos itens, com pequena participação no faturamento.

Os percentuais são apenas referência. Cada marca tem a própria curva, e é justamente ela que interessa.

Como montar a curva ABC da sua marca?

O processo é simples e pode ser feito em uma planilha:

  • Liste todos os produtos vendidos em um período, como os últimos 90 dias.
  • Ordene os produtos do maior para o menor faturamento.
  • Calcule quanto cada produto representa do faturamento total e some esses percentuais de forma acumulada.
  • Classifique como A os produtos que formam a maior parte do faturamento acumulado, como B os intermediários e como C os demais.

O resultado costuma surpreender. Muitas marcas descobrem que uma parte grande da coleção tem participação muito pequena nas vendas.

O que fazer com cada curva?

Os produtos da curva A nunca podem faltar. São os primeiros da fila na reposição, e a matéria-prima deles precisa estar planejada com antecedência.

Os produtos da curva B merecem acompanhamento. Alguns têm potencial para subir para a curva A com pequenos ajustes de exposição, cor ou comunicação.

Os produtos da curva C pedem uma análise mais cuidadosa. Antes de cortar, vale perguntar se a peça cumpre outra função na coleção, como atrair a cliente para a loja ou complementar outras peças. Se não cumprir nenhuma, é ali que costuma estar o estoque parado.

Curva A de venda é curva A de resultado?

Nem sempre. A curva ABC tradicional olha para o faturamento, mas faturamento não é lucro. Um produto pode vender muito justamente porque está com o preço apertado, e, nesse caso, a marca trabalha bastante para ganhar pouco.

Por isso, vale cruzar duas listas: os produtos que mais vendem e os produtos que mais deixam margem. O cruzamento forma quatro grupos, cada um com uma ação diferente:

  • Giro alto e margem alta: proteger e repor. São os produtos mais valiosos da coleção.
  • Giro alto e margem baixa: rever custo, construção ou preço. Vendem, mas podem estar consumindo capital sem retorno proporcional.
  • Giro baixo e margem alta: dosar a profundidade. Contribuem bem para o resultado, mas não justificam estoque grande.
  • Giro baixo e margem baixa: candidatos naturais a sair da coleção.

Um produto de giro alto e margem baixa consome capital, produção e espaço de vitrine sem necessariamente gerar resultado proporcional. Em períodos de caixa apertado, identificar esses itens faz muita diferença.

Todo estoque parado é um problema?

Nem todo estoque é problema. O problema é o estoque sem destino. Uma forma prática de organizar o que está parado é dividi-lo em três grupos:

  • Gira e precisa de reposição: não é excesso, é estoque estratégico.
  • Gira devagar, mas cumpre uma função: pode ser peça de vitrine ou complemento. Precisa de exposição melhor, não de corte.
  • Não tem função: aqui entram as ações de saída, como reaproveitamento ou venda com condição especial.

Zerar todo o estoque por medo pode gerar falta justamente do que vende. A pergunta não é “quanto estoque eu tenho?”, e sim “qual é o destino de cada estoque?”.

Na matéria-prima, vale um cuidado extra: tecidos com mais de uma aplicação costumam representar um estoque de menor risco, porque o mesmo metro pode virar peças diferentes conforme a venda responder.

O que observar na sua própria marca

  • Você sabe quais são os seus produtos curva A hoje?
  • A matéria-prima dos produtos curva A está planejada para reposição?
  • Quantos dos seus 10 produtos mais vendidos também estão entre os 10 de melhor margem?
  • Algum produto de alto giro precisa de revisão de custo, construção ou preço?
  • O estoque parado tem destino definido?
  • Algum produto da curva C está sendo mantido sem cumprir nenhuma função?

Conclusão: vender muito é bom, vender bem é melhor

Em um mercado mais lento, a tentação é concentrar esforço no que vende mais e cortar o que vende menos. Mas volume, sozinho, não mede resultado, e estoque, sozinho, não mede risco.

A curva ABC mostra quais produtos sustentam a marca. O cruzamento entre giro e margem mostra quais deles realmente geram resultado. E a análise do destino do estoque mostra o que precisa de reposição, de exposição ou de saída. Juntas, essas três leituras transformam a próxima compra em uma decisão baseada em dados, e não em sensação.

A Tecidos KITE acompanha há mais de 20 anos a relação entre compra de matéria-prima e desempenho de coleção, e uma constatação se repete: as marcas que leem bem os próprios números compram com muito mais segurança.

Quer planejar a reposição da sua curva A?

Depois de montar a curva ABC e cruzar giro com margem, o próximo passo é garantir que a matéria-prima dos produtos que sustentam a marca não falte. Um consultor da Tecidos KITE pode ajudar a planejar a reposição dos tecidos da sua curva A e a avaliar bases com mais de uma aplicação, que reduzem o risco de estoque parado.

Posts Relacionados

  • Sua cliente quer um motivo: valor percebido na moda

    Sua cliente quer um motivo: valor percebido na moda

    Menos movimento na loja, vendas abaixo do esperado e pressão para baixar o preço: é nesse cenário que o valor percebido na moda passa a fazer diferença. Nas conversas da Tecidos KITE com marcas de moda, esse cenário aparece com frequência, quase sempre acompanhado da mesma conclusão: o consumidor sumiu. Há outra forma de olhar…

  • Quem compete só em preço joga o jogo do outro

    Quem compete só em preço joga o jogo do outro

    Com o consumidor comparando mais, a pressão por preço chegou a toda a cadeia da moda, e pouca gente olha para o custo por peça vendida. Nas conversas da Tecidos KITE com marcas e confecções, duas comparações aparecem com frequência: “quanto custa o metro?” e “quanto custa a peça pronta importada?”. As duas perguntas são…

  • Curva ABC na moda: o que seus números não estão mostrando

    Curva ABC na moda: o que seus números não estão mostrando

    Quando o giro desacelera, muitas marcas olham primeiro para o ranking de vendas, e não para a curva ABC na moda: o que vendeu mais, o que vendeu menos. A partir dele, decide-se o que repor e o que cortar. O ranking de vendas é um bom ponto de partida, mas mostra só uma parte…